E no mundo no qual vivo, todas as flores são manchadas com o sangue de um garoto que há tempo não as toca por terem seus espinhos. E isso me lembra uma certa guerra entre carneiros e rosas que um dia encantou as crianças que já não fazem mais parte da nossa época - existem, mas são raras as que conhecem tal guerra. Não sei o que me faz sujar os dedos com o sangue desse garoto, dessa vez. Talvez porque eu não esteja satisfeito com o que tenho no momento - que poderia parecer uma fortuna para muitos.
Não se pode mudar de ideia tão fácil: acarreta consequências, desamores, raiva e aqui posso usar uma frase famosa por ser banhada em clichê: para se fazer um bom omelete, é preciso quebrar alguns ovos. Não gosto de omelete, portanto ao invés de quebrar ovos, racho corações. O que de certo ponto de vista, pode ser horrível e melancólico. Mas minha vida não está nada horrível e melancólica. O único problema é que o amor não é o suficiente pra fazer uma pessoa completamente feliz. Sou egoísta e quero mais. Quem quer o perigo acaba sangrando sozinho.
Uma vez concordou comigo - ou concordei com ele - um rapaz chamado Hélio, (escrevo como se tivesse acontecido há muitos e muitos anos, mas não foi: aconteceu hoje de madrugada) e sobre o que concordou? Concordou que amor era induzido, que não era mágico e não acontecia de repente. Acontece que temos uma tradição de querer magicar e enfeitar com tudo e a ideia de que o amor não é induzido nos faz se sentir melhor. A ideia de que é “por acaso” conforta nossos corações estranhos.
Pois decepciono-te: o amor não é por acaso. É induzido. Não existe tal força sobrenatural que te faz amar alguém, você-não-sabe-o-porquê. É invenção, é eufemismo em outra forma que não a tradicional.
Isso certamente não se aplica a desprender-se do amor: aí temos que tocar no sangue e nos nervos expostos de outra criancinha - garotinha, dessa vez -, que nos assombra por séculos: a indiferença.

Como diria Yoñlu, - e o título é inteiramente creditado a ele - a pior coisa que Platão inventou foi o amor - que só traz solidão. De Capitolina Pádua (Capitu) e Bento a Pierrot e a Colombina (e Arlequim, de intruso), há o amor. Que amor é esse, que tudo pode, tudo rasga, tudo atravessa e alegra? Seria esse o amor dos humanos? De Platão? Seria o amor de todos nós e de todos eles? Seria o mesmo amor que sinto?
Não sei! Clarice já disse nos seus últimos dias de vida que tudo era tão incerto. Quem sou eu pra discordar da nossa querida mulher de raízes ucranianas que tinha a flor de lis no peito? Acho que quando eu descobrir, passo aqui e conto pra vocês. Ou me faço de chato e guardo segredo.
Claro… achou que eu ia te contar o maior e mais valioso segredo de mão beijada?

Te olha da cabeça aos pés. Debocha. Elogia?
Se tens um amor que seja perfeito, liso, bonito, tudo bem: mas saiba que não vai durar. Não falo do amor, mas sim da consistência e da estabilidade. O amor dura sim. Dias, meses, anos, décadas. Podes até morrer com ele. Morrer com ele é claramente diferente de morrer por ele.
Quem morre de amor, morre sozinho. Eu juro que não estou querendo dar um ar sombrio, estranho e negativo pro amor: na verdade, não é isso. Estou só querendo dizer para que tome cuidado. Para que tome muito cuidado. Lidar com pessoas já é extremamente difícil. Lidar com a pessoa com quem se compartilha o “tudo” é mais difícil ainda.
Por exemplo: se olhe no espelho. Esse é você. Mas esse não é o “ele”.

Mudando de assunto… eu não estou mais conseguindo escrever. Escrevo e me vejo insignificante com minhas cinco ou seis linhas. Me sinto completamente insignificante; Eu escrevo por auto-ajuda e por ajuda. Escrevo por diversão. Por… prazer. Não sinto mais vontade de me ajudar. Não sinto mais vontade de ajudar. Não me divirto mais. Não tenho mais prazer. E eu não queria que fosse assim. Não mesmo. Queria continuar escrevendo, e escrevendo. Porque sinto, aqui no fundo, que alguns de vocês gostam disso. Que alguns de vocês se ajudam, compreendem. Mas não sei se isso é verdade. E acho que descobrir que a verdade é o contrário seria… decepcionante. Não vou parar de escrever, sabe? Mas a frequência com que escrevo vai diminuir (sim, mais) ou quem sabe aumentar. É tudo tão incerto quando se fala de mim mesmo.
Estou um pouco decepcionado comigo mesmo. Não me sinto suficiente. Parece que não sei mais completar, só sei ser completado. Isso não é bom; as pessoas exigem que eu as complete de vez em quando. E eu estou sentindo como se não soubesse mais fazer isso. Há algum tempo atrás, eu botaria a culpa de eu não conseguir mais escrever no verão e na sua temperatura irritantemente alta. Mas isso não adianta mais. Culpar as estações do ano pelas suas incapacidades é, no mínimo, infantil.
Antes de escrever esse texto, eu estava quase chorando. Mas não: não tem nada a ver com o que está escrito aqui. Tem a ver com umas coisas que acontecem diariamente comigo.
Estou com medo. Muito medo. Não medo de barata ou de aranha ou de cobra ou da morte: tenho medo de mim mesmo. Como alguém com medo de si mesmo pode completar alguém?

Quando fica estranho, difícil, amargo ou aspargo: deixe. Você tem todo o direito e a razão, se quer saber. Mesmo quando parecer que não. Mas você ter o direito não te dá o direito de expressar que tem. Vê? As pessoas se magoam.
Mas nunca abaixe a cabeça pra alguém que te magoou - se achar necessário. Mas tem que valer a pena. Você vale a pena? Ele? Ela?
Não confie demais. E não desconfie de menos.

Um dia tu vais compreender que não existe nem uma pessoa completamente má, nem uma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos completamente humanos. E sofrerás muito quando resolver dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí, sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não quereres entrar na ciranda deles, compreendes?

Tio Igor cuidava muito bem de suas sereias e tritãos. Tio Igor resolveu, bem cedo, se mudar para a Manchúria - que não era o melhor dos lugares do mundo, mas dava pro gasto. Igor era alto e sua ambição era tão alta quanto seus metros de alturas somados ao longo do corpo.
Recebeu, um dia, uma chamada de Londres.

- It’s London calling here, Sir. We want to help you: but you must let us help you before we can do something.

- Ahn? Não entendo chinês não, meu filho.

- Sir? Can you speak english instead of portuguese, please?

E Igor não sabia inglês. Mas sabia cantar. Havia aprendido com suas sereias.

Vamos sorrir em paz: buscar nossos amores.
Frequentar nossas dores (mas só de vez em quando).
Caminhe pela idade e dance através da liberdade.
Vá morar dois meses na Colômbia
Mas nunca se esqueça: somos todos feitos de desumanidades e são desumanidades que vamos espalhar por esse bairro, cidade, estado, nação, continente, mundo. E por outros mundos, até.

Para o menino atrevido, inteligente, que não se contenta com respostas banais, que gosta de descobrir por conta própria as suas dúvidas; para o menino que confia num galho frágil, mas descobre que a vida é muito mais do que um tombo; para o menino desbocado, mas que, apesar da sua eterna ironia, tem um coração de ouro; para o menino que quer crescer rápido demais e abraçar o mundo e enchê-lo de questões que deixaria Einstein maluco; para esse menino que entrou através da internet nas nossa vidas, que este seu ano novo seja descobertas desconcertantes, amores eternos, palavras doces, caminhos instigantes, humildade ao reconhecer que nunca sabemos tudo. A você, meu querido, feliz aniversário!
— Mirian Bueno Martin

um: os piratas

- Don’Marrrrrria? Don’Marrrrrrrrria? Responda logo, mi dulcinho de coco. Pai está aqui constied. - disse ele, arranhando seu português arcaico mesclado com espanhol e com um sotaque frescurento de argentino marrento com sérios problemas de dicção. - Ninguém, Marrrria, alãm de vóce, pode mudar teo fotoro e libertar soa mente.

- Papai. Tir’éstas tuas mãos de minhas indefesas pernas - imediatamente - ou levarás um chute em tuas vergonhas.

O velho afastou-se.

- Vende-me, pai. Mas não apossas-te de mim que faço-te eunuco.

E o barco partiu. A garota estava jogada em meio aos barris de rum, com as pernas abertas como que prontas pro pecado da carne. Riram os piratas. Apossaram-se os piratas.

V wants a cracker
I Think I should get off h(er)im first
(N)
I think (s)he wants some water
To put out the blow torch

V wants a cracker
Maybe (s)he would like some food
(S)He asked me to untie h(er)im
A chase would be nice for a few

V* said…
V says h(er)is back hurts
(S)He’s just as bored as me
(S)He caught me off my guard
It amazes me, the will of instinct.

the will of instinct.

I
pessoas na esplanada da corrupção,
tentando de modo estranho
mudar o futuro da nação.

pessoas com seus tanques cheios de emoção
tentando de modo estranho
mudar o futuro da nação

pessoas - sem noção
tentando mudar o futuro da nação.

II
os humanos são desumanos
e em desumanidade morrerão
seja por formigas
ou por chinas
ou por cavaleiros
ou por eles mesmos.

III
morte ao negro.
morte ao indiano e ao caucasiano.