04 1 / 2012
Vender a alma e mudar de ideia talvez surta o mesmo efeito, dependendo do mundo no qual você vive.
E no mundo no qual vivo, todas as flores são manchadas com o sangue de um garoto que há tempo não as toca por terem seus espinhos. E isso me lembra uma certa guerra entre carneiros e rosas que um dia encantou as crianças que já não fazem mais parte da nossa época - existem, mas são raras as que conhecem tal guerra. Não sei o que me faz sujar os dedos com o sangue desse garoto, dessa vez. Talvez porque eu não esteja satisfeito com o que tenho no momento - que poderia parecer uma fortuna para muitos.
Não se pode mudar de ideia tão fácil: acarreta consequências, desamores, raiva e aqui posso usar uma frase famosa por ser banhada em clichê: para se fazer um bom omelete, é preciso quebrar alguns ovos. Não gosto de omelete, portanto ao invés de quebrar ovos, racho corações. O que de certo ponto de vista, pode ser horrível e melancólico. Mas minha vida não está nada horrível e melancólica. O único problema é que o amor não é o suficiente pra fazer uma pessoa completamente feliz. Sou egoísta e quero mais. Quem quer o perigo acaba sangrando sozinho.
Uma vez concordou comigo - ou concordei com ele - um rapaz chamado Hélio, (escrevo como se tivesse acontecido há muitos e muitos anos, mas não foi: aconteceu hoje de madrugada) e sobre o que concordou? Concordou que amor era induzido, que não era mágico e não acontecia de repente. Acontece que temos uma tradição de querer magicar e enfeitar com tudo e a ideia de que o amor não é induzido nos faz se sentir melhor. A ideia de que é “por acaso” conforta nossos corações estranhos.
Pois decepciono-te: o amor não é por acaso. É induzido. Não existe tal força sobrenatural que te faz amar alguém, você-não-sabe-o-porquê. É invenção, é eufemismo em outra forma que não a tradicional.
Isso certamente não se aplica a desprender-se do amor: aí temos que tocar no sangue e nos nervos expostos de outra criancinha - garotinha, dessa vez -, que nos assombra por séculos: a indiferença.