27 1 / 2012
A lua de Monacce
Primum (, non nocere?)
“Estão convidados para a grande inauguração do terceiro andar da Mansão Monacce todos aqueles que possuem pele parda e olhos verdes. Se te interessa o assunto, venha e retire seu convite.”, repetia o homem vez após outra. Segurava os convites de forma porca e estranha, do mesmo modo como aqueles velhos entregavam os panfletos da clínica dentária na esquina da José de Alencar com a Cônego Cipião. “Dentaz” era o nome da clínica, se não me engano. Mas ao invés de tirar atenção da história que venho aqui contar, prosseguirei. Só dessa vez.
– Eu quero um convite - revelou um garoto. Pardo. Olhos verdes.
– Tudo bem, menino. Aqui está. - e entregou um panfleto de alumínio dourado ao garoto.
– Obrigado, senhor.
– De nada.
Era sabido que todos que iam até a Mansão Monacce voltavam decepcionados por terem esperado algo bem mais digno de uma inauguração. Mas garotos são garotos e a curiosidade desse ultrapassava decepções - decepções, estas, que ele não teria.
O relógio da cidade marcava meia-noite com um tilintar bem suave e sonoro por toda a região. Além de marcar meia-noite, esse tilintar indicava que era hora da inauguração. Apressado, o garoto colocou seu par de galochas pois previa que o caminho até a Mansão Monacce estaria muito lamacento por causa daquele verão anormalmente chuvoso que enfrentavam naquela pequena ilha esquecida no oceano pacífico.
Chegou nos portões da mansão com as botas sujas de barro e chacoalhou-as pra lá e pra cá visando tirar a lama para que pudesse aparentar um pouco aceitável. E não sabia o que fazer com o convite. Não havia guarda nem mordomo; muito menos luzes. Estava tudo escuro.
Tirou seu panfleto dourado do bolso e balançou para o alto, achando que alguém pudesse notá-lo. O panfleto, porém, brilhava insistentemente apesar da ausência de luz no local.
Não veio ninguém e o garoto inquietou-se: jogou o panfleto no chão. Um trovão imediatamente ecoou pelos bosques da Mansão Monacce, fazendo o garoto saltasse de susto. Uma placa gigante no chão brilhou, fazendo com que fosse possível ler em letras bem grandes: “JOGUE SEU CONVITE EM CIMA DESTA PLACA”.
O garoto sorriu e um raio o acertou. Desapareceu em meio a faíscas.
Estavam todos sorridentes num salão da mansão tomando vinho e conversando sobre os recentes avanços tecnológicos na área de robótica, que aconteciam nas terras do norte daquelas terras em que estavam. As luzes se apagaram e um raio saiu do piso quadriculado (em verde e roxo) do salão. Se materializou ali, em meio ao salão - e a partir de um raio - o garoto pardo de olhos verdes. Seu nome era Uln’y e fazia parte de uma tribo que vivia afastada da civilização. A luz voltou. Uln’y, ainda assustado, percebeu que o panfleto voava suavemente à sua frente; como uma pluma que foi deixava aos cuidados do destino por uma criança de cinco anos.
– Ah! Aqui está. Mais um convidado - exclamou o anfitrião, Sérgio Honma Monacce (sim, porque pessoas importantes precisam ter seus nomes escritos por inteiro, sílaba por sílaba) - Já podemos começar a inauguração. Sigam-me todos, por favor - e bateu duas palmas, palmas essas que foram potencializadas pelo fato de Sérgio estar usando luvas de látex cirúrgicas.
Uma porta de oito metros ficava mais visível à medida que o anfitrião se aproximava dela. Parecia tudo friamente calculado. Bateu mais duas palmas. A porta abriu - para dentro. Um vento monstruoso entrou por ela como se quisesse devastar tudo, mas apenas devastou cabelos com laquê e maquiagens porcamente feitas.
Uln’y foi o primeiro a se aproximar da porta depois de Sérgio. E viu o que todos mais queriam ver: a lua. Havia uma lua no terceiro andar da Mansão Monacce. Todos, incrédulos, tentaram entender a situação.
Muito longe dali, num lugar chamado Europa - a lua, não o continente -, extraterrestres miravam seus canhões de plasma azul para a Terra. Sem hesitar, atiraram. A lua de Monacce explodiu. Uln’y se explodiu. Todos se explodiram.
– Papai - disse Hen, que acompanhava seu pai numa base subterrânea em Europa - eles tinham mesmo que morrer, papai? Não foi crueldade demais, papai? Eles não são como nós?
– Eles são, Hen. São como nós. Mas se tiveram a capacidade de aprisionar a lua de nosso planeta, sem ao menos nos procurar para que pudessem pedir permissão, o que fariam se soubessem da nossa existência? É difícil, filho. Mas uma raça onde não há respeito entre eles mesmos não é digna de uma ou duas chances para que possam respeitar a nós. Foi por isso, filho, que explodimos a Terra. Mas não se preocupe. O grande Shivàn há de cuidar do ikakeru desses pobres mortais. Eles não morreram. Apenas foram para um lugar melhor.
– Pai… seu nariz está sangrando.
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