21 2 / 2012
A Arábia
1: A visita
No meio do verão em que minha mente se encontra, em meio a todos os pensamentos quentes e abafados, encontrei o inverno. Encontrei-o como se fosse amigo de longa data, daqueles amigos que fica sem se ver durante tempos e tempos e só se vê uma vez por ano mas que você ama com tanta convicção que daria sua vida e tudo o que viesse com ela embora só pra ter seu reconhecimento. Aqueles amigos do tipo Muri.
Enquanto conversávamos, como se já não fosse estranho nosso encontro fora de época, percebi que ele havia mudado. Disse-me que eu teria que entender que algumas pessoas, como ele, gostavam da solidão e da frieza que seus cobertores quentes revelavam.
Revoltei-me: a solidão não faz e nunca fez sentido, por mais que em certa época de minha vida eu a tenha acolhido. Ficar sozinho não faz sentido. E se faz pra alguém, há algo de errado. A solidão parece que combina, que acolhe, que aconchega: mas só corrompe. Que graça há na solidão? Eu sem elas e eles não seria nada. Você também não será.
Depois de toda minha revolta, caí em lágrimas e tentei usar de toda empatia que eu poderia para tentar entender o que faria alguém querer a solidão. A solidão pode ser sinal de afeto; as pessoas querem constantemente poupar as outras das coisas más porque as amam. Mas não fazem, as coisas más, parte da vida? Claro que o fazem! Deixe que aconteçam as coisas más, oras - não todas, decerto.
Não tenho coragem de te deixar só. Porque amo-te. Amando-te, sou incapaz de exercer a solidão em seu malefício. Posso estar errado? Sim, posso. Mas não quero pagar para ver e acabar estando errado em te deixar só. Estou com medo de sofrer tanto de novo.
2: A conversa
— Peixe?
— Peixe.
— E era grande?
— Muito. Quase me derrubou do barco.
— Não pediu ajuda, não?
— Não, não. Falei com ele e amansou certinho o bicho.
— Falar com peixe? Eu sabia que você não batia bem dos cocos.
— Para com isso!
— Te amo.
— Eu também.