31 7 / 2011

Felicidade na morte (originalmente “bonheur dans la mort”)

Uma das coisas que sempre me intrigou é o estado de humor em que as pessoas se encontram quando morrem. Poderíamos considerar o “quando morrem” como segundos antes do corpo encerrar seu expediente nessa estranha bola azulada e passar a ser apenas adubo pra plantas que um dia virão a crescer. Como já dito por Camus, no caso do suicídio, mais importante é o momento crucial antes do fato do que o fato em si. O momento em que se define seu destino. Mas isso, por exemplo, não se aplica a uma morte causada por uma bala perdida. Ou se aplica?
É aí que entra o fator felicidade. Pessoas que morrem por acaso, morrem felizes? A morte é uma coisa muito comum por todo o mundo. E posso te dizer que tenho certeza que a esmagadora maioria das pessoas não sente nada. Então, com a consciência esvaída, essas pessoas teriam simplesmente vivido em vão - exceto pela felicidade e lembranças que proporcionou a outras pessoas quando viva - ? E me pergunto, numa visão bem niilista, que diferença faria? Nenhuma? O fim seria exatamente o mesmo: caixão ou ser transformado em cinzas. Nada de importância dariam para os sentimentos da pessoa antes de morrer, para seus gostos. Quando se morre, simplesmente se deixa de existir. As pessoas que te amavam? Se acostumam. É disso que a vida é feita; de se acostumar; se adaptar. Estamos numa época onde os sentimentos estão parecendo mais importantes do que qualquer outra coisa. As pessoas se expressam mais.
Seria justo que houvesse um “depois” para as ideias das pessoas, para os sentimentos. Que eles pudessem ser lembrados. Muito bem lembrados. Na mente, no papel, nas imagens estáticas, nas imagens-não-tão-estáticas.
Eu não ligo que um dia eu vá morrer. Minha única preocupação é que minhas ideias desapareçam tão rápido quanto minha carne comida pelos vermes. Minha vida pode ser curta, breve e inútil. Mas quero que minhas ideias sejam eternas.

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