07 9 / 2011

-20 Atacama

Já há muito o garoto caminhava pelo deserto. Sua boca estava seca, e seu corpo fraquejava mais e mais a cada passo que ele dava em direção ao leste. O sol nascente, por mais brilhante e amarelo que fosse, não esquentava seu corpo. Pelo contrário, o frio no Deserto do Atacama era proporcional ao seu tamanho: incalculável. Mesmo as 4 camadas de roupas que usava pareciam feitas de jornal, e não de lã. Ninguém podia entender como esse lugar era tão frio, afinal.
O deserto do Atacama estava gelado. Era um fato curiosamente improvável. Mas, mesmo que um fato carregado com toda a improbabilidade possível em cada grão minúsculo de areia, era um fato.
Fato este que de modo algum poderia ser ignorado ou amenizado: o deserto mais quente do planeta estava gelado. Não que fosse alguma anormalidade sobrenatural, mas concordemos que isso era tão estranho quanto um certo messias de alguns mil anos atrás fazer com que água virasse vinho - na verdade, nada é tão estranho quanto água virar vinho.
Havia um jovem. Caminhando. No meio do deserto do Atacama. Outro fato curioso. Minhas histórias são cheias de fatos curiosos e improváveis, na verdade.
Podemos, novamente, concordar em algo: alguém caminhar no deserto do Atacama já era suficientemente estranho quando ele estava quente. Agora imagina aqui, comigo, esse mesmo deserto - mas frio. Eu, particularmente, não caminharia por ele. Ainda mais porque fazia -20 graus Celsius.