08 9 / 2011
Mônica e as batatas
Eram lindos dias de Sol. Mônica amava cozinhar para seu marido - Cláudio - que amava que Mônica cozinhasse para ele.
Os dois moravam juntos havia apenas três dias: se casaram, meteram na lua de mel - o que todo casal faz, convenhamos (exceto os lesados) e Mônica estava grávida mas ainda nem sonhava com isso; nove meses que Mônica gastaria sentada descascando batatas esperando seu marido voltar do bar da esquina todos os dias. Ele não era alcoólatra, por favor não se engane. Cláudio era psicólogo e amava as batatas de sua mulher - tanto as batatas de suas sensuais pernas como as que cozinhava - e só ia ao bar para observar o comportamento humano. Marcava tudo numa agenda. Tinha nomes, horários, desenhos de rostos, anotações de falas.
Mônica morreu no parto. Cláudio morreu de susto ao ver Mônica morrendo.
Uma das enfermeiras que ajudou no parto, Fátima, era também empregada doméstica. Limpava a casa de um velho tarado - com quem, naturalmente, também metia (além de seu ex-marido e de seu irmão). Tal velho tarado morava num casarão gigantesco na Rua de Epinefrígonas, no centro de uma cidade no Pernambuco. Como o velho não enxergava direito, Fátima limpava porcamente os móveis, chão e paredes da casa - e o velho mal percebia, porque na verdade estava mais interessado mesmo em meter com Fátima. O velho morreu. Deixou o casarão de herança para sua empregada doméstica, uma caixa de joias e um filho na barriga.
Fátima não morreu no parto, mas evidentemente não perdeu a oportunidade de abandonar o filho logo que o nojentinho desmamou. Cada vez que o ranhento grudava nas tetas da “Tia ‘tima” era como se estivesse sugando o Sol e o cometa Elenin pelos bicos das glândulas mamárias da mulher.
Fátima deu o nome de Tirapinumbo para o menino, tentando expressar sua raiva diante da capacidade de sucção do menino. Fátima o deu embora. Fátima morreu, literalmente, de arrependimento (pouco mais de duas horas depois de ter dado o filho embora).
Mas nesse momento, Numbinho, como gostava de ser chamado quando chegou na adolescência, já estava num carro em direção ao Uruguai. Lá, foi batizado como “Tirap’ Numbo Ojeda di Orleano i Colzza”.
Tirap’, na adolescência, tinha um estranho jeito de conseguir não explorar o mundo quando estava amando alguém.
Acontece, que para ele, quando se tinha alguém pra se pra se partilhar a vida, a alma e os corpos, quando se tinha alguém pra te descascar batatas enquanto você não voltava do bar, quando se tinha um ranhentinho pra mamar em suas tetas até secarem e caírem, quando se tinha o amor, se tinha tudo. Se tinha uma ilha só sua e dela ou dele pra se explorar. E quem vai querer viajar até os Andes quando há um continente todo grudado em seu corpo pra que você tateie, explore, molde e sussurre como quiser?
Permalink 2 notes